As Flores de Amália

 

Extraviávamos o olhar pelas árvores, inimigas entre si. As vezes tinha de cortar uma árvore, para saber se vivia. Eram como de arame. Eu nunca vi flores como as de Dona Amália. Conversava com os adultos, mas estes falavam da água, do velho, do rio, dos documentos, nas casas. As flores apareciam num discurso, quando se prometia o amanhã.

 

Amália, viúva há muitos anos, era como se tivesse a peste da solidão. Não saía de casa, senão nas noites de primavera, e escondida. Alguém a via, sempre de longe. Não falava com ninguém. Amália nas asas de seu chale negro, em um cone de sombra na enredadeira da varanda do rancho, em tempo espichado desde a meia manhã, quando tomava o mate de leite, até a lua por sob as árvores. E sempre fazendo as flores, vermelhas, alongadas como luas mentirosas.

 

Todas as árvores do Talado tinham dessas flores. E corria fama que as flores de corticeira, de Dona Amália duravam tanto quanto as verdadeiras. A cada dia, a partir de 21 de setembro, aparecia uma árvore coberta de flores que Amália orendia com alfinetes. Eram as flores de todo o verão, o outono e o inverno, embaixo da ramada. O sol castigava o papel e morriam as flores, sem caírem, enferrujando o alfinete e os talos. Aquilo nos dava a sensação de coisa perfeita, que corrigia ao sol, tendo que iluminar e crescer devagar, pois cada manhã, para surpresa nossa, surgia uma árvore nova,toda vestida de vermelho. Algumas, em pleno verão; outras, em pleno inverno. As árvores viraram animais eriçados de medo, com espinhos grandes como ramos.

 

-A senhora acredita no Velho?

 

-Eu sou jovem -repreendeu a anciã- de pequenas primaveras. Quando me ensinaram a flor de

corticeira molhada, eu tinha as pernas e o peito como um ramo. Assim que o Velho já era um recanto muito escondido em todas memórias.

 

- A senhora aceita que eu a ajude com as flores? - disse prontamente a menina Severo

 

- Tenho que fazer flores ou tocar piano.

 

-Filha, o piano te espera. As flores é algo que nasce de ti e não podes fazer outra coisa. É trabalho largo e sofrimento chegar até as flores.

 

-Dona Amália, eu quero as flores.

 

-Filha, as flores são mais iguais umas com as outras, do que as notas...

 

- Sim. Mas delas se pode fazer luares e uma face mais vermelha que a outra.

 

A menor dos Severo foi ao rancho de Amália. Revi-a embaixo da ramada. Era uma sombra pequena, ao lado da grande.

 

Que as árvores se alimentem de árvores, pode ser um caminho. Mas, contam que chegaram a comer o coração e o cérebro dos animais, para crescer. A maldição está com elas. Crescer não é reaver o coração. E, também não é dar algumas moedas. Com as coisas aconteceria o mesmo. Crescer é formar uma pedra, sem começar com restos de pedra.

 

Da escola observevamos o rancho de Dona Amália. Ela era pa a nós tudo o que a professora dizia que o ar, o sol e a terra faziam. A professora era e parecia velha. E nós a festejávamos, faziámos todos os mapas e as ilustrações com as cores devidas, ainda a anotação cuidadosa da história do santo diário. Enchíamos o caderno e ela bordava de “parabéns a você”.

 

Dom Geraldo pôs fogo no seu rancho. Tinha-no construído com tabuas de remates, janelas e restos de demolições. Quando o terminou, deu-se conta que o rancho ficara mais velho do que ele.. Entaão, ateou-lhe fogo. Passou pela escola com cara de felicidade. Por isso eu desenhei uma roda de meninos acima do rancho todo vermelh d enamas. Uma roda de rostos separados do corpo; só de rostos felizes, como o de Geraldo, depois do incêndio. A professora me deixou mal e ensinou que um incêndio é uma tragédia. - Mas por quê? - Porque se perdem todas as coisas - disse-me com as palmas das mãos e os olhos voltados para o alto.

 

Eu perdi a confiança da professora porque falava de ter de comprar, de ricos ou de pobres. Olhava-me de soslaio e separava as sílabas: por-que - é - ne-ces-sá-rio - ser-mos - bons - com - os - po-bres, - a-ju-dá - -los - pa-ra - que - não - o dei-xem - de - as-sim - ser.

 

Um dia, a professora veio com a invenção do assobio. Não sei que relação tem a música em tudo isso. Mas, um dia a rádio tocou só marchas. No outro dia, foi um silêncio de ninguém ir ao trabalho ou sair à rua.

 

Depois de alguns dias de feriado, retornamos à escola. A professora ensinou: com um silvo chamava os meninos; dois silvos, as meninas e três, aos empregados. Esse dia nos sentenciaram a todos porque nos agredíamos com os apitos. A professora usava o apito dependurado no pescoço e a mão desviava muito perto para chegar a tempo ao seu comando. O que antes fazíamos caminhando, agora tínhamos de o fazer correndo.

 

Mais nos enganávamos, mas recebíamos aprovação quando acertávamos. Meu caminho para a escola mudou. Não se podia mais passar em frente à casa de Dona Amália porque era mau exemplo. Igualmente, na primavera, chegaram suas feridas vermelhas, poucas, pois passara dois meses presa para investigações.

 

A menor dos Severo foi com ela, mas não voltou nem se soube mais dela.

 

No lugar onde esperávamos o rio, as autoridades ergueram um imenso monumento ao Velho...Em nada se parecia com o velho -conforme contavam- havia anunciado a nossos avós o nascimento de um rio. Cada vez que olhávamos o monumento, vínha-nos a idéia de que o rio não podia vir com tanta pedra


em cima. Não

tivemos rio, e sim monumento. As autoridades demonstraram que o rio não era necessário. Instalaram o cano, isto é um metro de diâmetro, desde o rio mais próximo; a cem quilômetros, todo de cimento. A inauguração do cano atraiu tanta gente que nós, os taladenses, não nod encontrávamos. À tarde desceu um avião e veio o presidente. Desde a manhã, a escola estava a postos perto do cano. O padre Noriega benzeu-o. Aplaudimos a todo o momento que a professora aplaudia. Ela suspeitava de mim e olhava de soslaio. Deve ter ficado contente porque eu tinha frio e aplaudi com todo o corpo. No outro dia, meu pai soube que devia começar a pagar o cano.

 

Quando o povoado amanheceu com música, para festejar o primeiro mês do cano; descobriu-se que perto do final havia quebrado e a água começava a nos inundar. Enchia os poços. Até que um dia cortaram a água, para consertá-lo nos diversos vazamentos. Não tivemos mais água, mas minha mãe seguiu pagando o cano.

 

Naqueles dias, o rancho de Dona Amália virou ilha. Tinha que saltar como três metros. Mas ela não saiu. Continuou embaixo da ramada. Quando a água foi embora e estiou a terra, Geraldo foi surpreendido insultando o monumento e o cano. Levaram-no sem rosto de felicidade. E nunca mais o vimos.

 

As autoridades proibiram passar-se em frente ao rancho de Amália. De inconveniente passou a ser proibido. Desocuparam as casas vizihnas. Ninguém queria ser suspeito. Então, alguns de nós, antes companheiros de escola, resolvemos falar com ela. Fomos uns poucos. Sussurrávamos, como se ela fosse um ídolo distante. Nós que nada conhecíamos, pedíamos o caminho a ela. Esta va baixinha e curvada. A ramada parecia ocar-se, para deixar-lhe mover os braços. Tínhamos certeza de que não nos escutava. Mas, no dia seguinte, em pleno inverno apareceram suas flores de corticeira, cobrindo completamente uma árvore. E a ela não agarraram, eh? Ela sim, se foi para sempre. Mostrou-nos, porém, que até as estações se pode trocar.

 

 

CONTOS TRADUZIDOS:


O Adivinho

As Flores de Amália

 

 

TRADUTORA: Profª Nadja Maria Boelter da Rosa


DATA: setembro de 1992



 

BIBLIOGRAFIA

 

GARET, Leonardo Los Hombres del Agua, Destabanda Proalsur, Montevideo, 1988,


Diccionario Portugues-Espanol y Espanol-Portugues, Editorial Ramón Sopena España, Barcelona. Gráficas Ramón Sopena, S.A. 1986.


Novo Dicionário da Língua Portugusa, de Ferrerira, Aurélio Buarque de Holanda, 2a ed., Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira. 1986.

       
 

 

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